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domingo, 26 de junho de 2011

Texto Famoso: Apesar de... (Martha Medeiros)



 Apesar de ela sempre reclamar do corte de cabelo dele, e de também criaticar o seu guarda-roupa (''onde é que você desencavou esta calça amarela?''), ele segue adorando essa ranzinza porque ninguém sabe, como ela, fazê-lo se sentir tão imprescindível na vida de alguém.
Apesar de ele nunca querer sair com os amigos dela e implicar com o jeito que ela dirige, ela não o abandona nem sob decreto, porque ninguém, como ele, sabe fazê-la se sentir tão desejada.
Não lembro quem disse que a gente gosta de uma pessoa não por causa de, mas apesar de. Gostar do que é gostável é fácil: gentileza, bom humor, inteligência, simpatia, tudo isso a gente tem em estoque na hora em que conhece uma pessoa e resolve conquistá-la. Os defeitos ficam guardadinhos nos primeiros dias e só então,com a convivência, vão saindo do esconderijo e revelando-se no dia a dia.Você então descobre que ele não é apenas gentil e doce, mas também um tremendo casca-grossa quando trata os próprios funcionários. E ela não é apenas segura e determinada, mas uma chorona que passa 20 dias por mês com TPM. E que ele ronca, e que ela diz palavões demais, e que ele é supersticioso por bobagens, e que ela enjoa na estrada,e que ele não gosta de criança, e que ela não gosta de cachorro, e agora? Agora convoquem o amor pra resolver esta encrenca.
O par ideal não existe. Esta tal de alma gêmea é uma invenção que colou não sei como, porque é só pensar um pouco pra ver que não faz sentido: seria um sorte excepcional sua alma gêmea morar na mesma cidade, frequentar o mesmo clube e o mesmo bairro que você. Sua alma gêmea pode muito bem viver em Kuala Lumpur ou em Helsinque, como é que você foi cair nos braços do primeiro candidato ao posto sem dar um giro pelo mundo antes? O que existe é uma necessidade de extravasar nossos sentimentos mais nobres, uma vontade maluca de pertencer emocionalmente a alguém. Existe um sexto sentido que nos conduz em direção a uma determinada pessoa, existe uma vontade de estar junto, de trazê-la para o nosso mundo e também de entrar no mundo dela, existe uma aversão a solidão que nos impulsiona para o desconhecido - ou para a desconhecida. E estes seres estranhos são gentis, bem-humorados,inteligentes,simpáticos, e o que mais? Ele deixa a casa esculhambada, ela é péssima cozinheira. Ele é pão-duro, ela gasta insanamente. Ele se irrita quando seu time perde, ela desmorona quando é criticada. Ele tem medo de altura,ela tem medo de tempestade. Ele chega atrasado, ela nunca está pronta. Ele é muito distraído, ela é muito ciumenta. Ele não gosta de sair, ela não gosta de ler. Ele dorme tarde, ela tem insonia.Ele é gremista doente, ela nem sabe o que é um escanteio.
Mas se adoram, apesar de. (Martha Medeiros)

She wouldn't cry for anyone.

Na mão direita uma xícara de porcelana com um chá de Camomila bem quente. Os joelhos dobrados em cima do sofá. Os cabelos presos num coque desarrumado. No corpo, seu moletom velho e surrado, mas era de longe, o melhor moletom do mundo. Em cima das pernas, um livro qualquer. Os olhos liam atentamente a cada palavra, mas nem todas eram memorizadas e entendidas.

Ela não prestava atenção. Estava lendo mecanicamente. Talvez ainda soubesse que a xícara estava em suas mãos e que o chá esfriaria, mas não se dera ao trabalho de levá-la aos lábios brancos pelo frio. Seu corpo, mesmo com o moletom, estava frio. Seu rosto, pálido. Sua alma, congelada.

E não havia vento entrando pela janela. Não havia ao menos uma fresta aberta. Não era frio psicológico. Era frio amoroso e doloroso.

Ela havia escutado aquelas seis malditas letras, que juntas formavam a palavra mais dolorosa para ela: acabou e depois dessa, vieram tantas outras palavras que ela mal sabia reorganizá-las em sua mente. Ela não conseguia, na verdade. Sua mente apenas martelava no acabou e seu coração batia mecanicamente porque ela não sentia dor nenhuma. Na verdade, ela não sentia nada. Nem a xícara que estava ainda muito quente queimando-lhe a palma da mão, nem o frio que pairava no ar. 

Sorte a dela que não sentia nada, mesmo que quisesse. Queria sentir a dor da perda do primeiro amor, como todos diziam que era. Queria sentir as lágrimas caindo pelas bochechas macias e geralmente coradas - agora pálidas. Queria poder gritar e se enfiar embaixo de uma coberta. Queria ver um filme romântico comendo brigadeiro e se esbaldar em lágrimas, mas ela não conseguia. E não era por falta de sentimentos. Nem porque era fria.

Era só porque ela acabou descobrindo que o amor não machuca, as pessoas é que se auto-mutilam sozinhas. Ela sabia que se derramasse uma lágrima, não pararia mais, mas sabia também que se chorasse, era porque ele não lhe merecia. Ela sabia que não a merecia, mas ele não merecia suas lágrimas. Manteria-se forte até que não aguentasse mais e mesmo quando não aguentasse, aguentaria mais um pouco. Aquilo podia sugar-lhe a alma, mas não choraria, tampouco sofreria. Ela era sensível, mas determinada. Era sentimentalista, mas não era idiota. 
Depois de ter passado a  metade de sua adolescência lendo textos sobre decepções amorosas de amigas e pessoas que ao menos conhecia, ela havia colocado uma coisa em sua cabeça: jamais choraria por homem nenhum, pois eles não mereceriam suas lágrimas. E até pareceria clichê, se não fosse verdade, mas o único que merece suas lágrimas, jamais a faria chorar. E depois de tanto ler essas frases, sentia-se preparada para encarar o mundo amoroso e decepcionante

Ela passaria por aquilo centena de vezes, como sua mãe e suas amigas haviam lhe dito certa vez, mas ela, como na primeira vez, não choraria em nenhuma delas. Não derramaria sequer uma lágrima por homem nenhum.

E eu esperava, do fundo do meu coração, que ela conseguisse.